MANUAL DE UM GUERREIRO DA LUZ - TRECHOS
O guerreiro sempre ouve as palavras de alguns pregadores antigos, como as de T.H. Huxley:
"As conseqüências de nossas ações são espantalhos para os covardes, e raios de luz para os sábios.
"O tabuleiro de xadrez é o mundo. As peças são os gestos de nossa vida diária; as regras são as chamadas leis da natureza.
Não podemos enxergar o Jogador que está do outro lado do tabuleiro, mas sabemos que Ele é justo, honesto, e paciente".
Cabe ao guerreiro aceitar o desafio. Ele sabe que Deus não deixa passar um só erro daqueles que ama, e não permite que seus preferidos finjam desconhecer as regras do jogo.
Um guerreiro da luz não adia suas decisões. Ele reflete bastante antes de agir; considera seu treinamento, sua responsabilidade, e seu dever com o mestre. Procura manter a serenidade, e analisa cada passo como se fosse o mais importante. Entretanto, no momento em que toma uma decisão, o guerreiro segue adiante: não tem mais dúvidas sobre o que escolheu, nem muda de percurso se as circunstancias forem diferentes do que imaginava. Se sua decisão foi correta, vencerá o combate - mesmo que dure mais do que o previsto. Se sua decisão foi errada, ele será derrotado, e terá que recomeçar tudo de novo - com mais sabedoria.. Mas um guerreiro da luz, quando começa, vai até o fim.
Um guerreiro sabe que seus melhores mestres são as pessoas com quem divide o campo de batalha. É perigoso pedir um conselho. É muito mais arriscado dar um conselho. Quando ele precisa de ajuda, procura ver como seus amigos resolvem - ou não resolvem - seus problemas. Se está em busca de inspiração, lê nos lábios de seu vizinho as palavras que seu anjo da guarda quer lhe dizer.
Quando está cansado ou solitário, não sonha com mulheres e homens distantes; procura quem está ao seu lado, e divide a sua dor ou a sua necessidade de carinho - com prazer e sem culpa.
Um guerreiro sabe que a estrela mais distante do Universo se manifesta no mundo a sua volta.
Um guerreiro da luz divide seu mundo com as pessoas que ama. Procura animá-las a fazer o que
gostariam, mas não tem coragem.
Nestes momentos, o adversário aparece com duas tábuas na mão.
Numa das tábuas está escrito: "Pense mais em você. Conserve as bênçãos para si mesmo, ou vai terminar perdendo tudo".
Na outra tábua, lê: “quem é você para ajudar os outros? Será que não consegue ver os próprios defeitos?”.
Um guerreiro sabe que tem defeitos. Mas sabe também que não pode crescer sozinho, e distanciar-se de seus companheiros.O guerreiro da luz medita. Senta-se em um lugar tranquilo da sua tenda, e entrega-se a luz divina. Ao fazer isto, procura não pensar em nada; desliga-se da busca de prazeres, dos desafios e das revelações - e deixa que seus dons e seus poderes se manifestem. Mesmo que não os perceba na mesma hora, estes dons e poderes estão tomando conta de sua vida, e vão influir no seu cotidiano. Enquanto medita, o guerreiro não é ele, mas uma centelha da Alma do Mundo. São estes momentos que lhe permitem entender sua responsabilidade, e agir de acordo com ela.
Um guerreiro da luz sabe que - no silêncio do seu coração, existe uma ordem que o orienta.
"Quando tenho o arco esticado", diz Herrigel ao seu mestre zen , “chega um momento em que, se não disparo imediatamente, sinto que vou perder o fôlego".
"Enquanto você tentar provocar o momento de disparar a flecha, não irá aprender a arte dos arqueiros", diz o mestre. " A mão que estica o arco deve abrir-se como a mão de um menino. O que as vezes atrapalha a precisão do tiro, é a vontade demasiado ativa do arqueiro”.
Um guerreiro da luz às vezes pensa: “aquilo que eu não fizer, não será feito”.
Não é bem assim: ele deve agir, mas deve também deixar que o Universo atue em seu devido momento.
Um guerreiro, quando sofre uma injustiça, geralmente procura ficar sozinho - para não mostrar sua dor aos outros. É um comportamento é bom e mau ao mesmo tempo. Uma coisa é deixar que seu coração cure lentamente as próprias feridas. Outra coisa é ficar em meditação profunda todo o dia, com medo de parecer fraco. Dentro de cada um de nós existe um anjo e um demônio, e suas vozes são muito parecidas. Diante da dificuldade, o demônio alimenta esta conversa solitária, procurando nos mostrar como somos vulneráveis. O anjo nos faz refletir sobre nossas atitudes, e às vezes precisa da boca de alguém para se manifestar.
Um guerreiro equilibra solidão e dependência à ajuda dos outros.
Um guerreiro da luz precisa de amor. O afeto e o carinho fazem parte de sua natureza - tanto quanto o comer, o beber, e o gosto pelo Bom Combate. Quando o guerreiro não está feliz diante do pôr-do-sol, alguma coisa está errada. Neste momento, o guerreiro interrompe o combate e vai em busca de companhia, para assistirem juntos ao entardecer. Se tiver dificuldades em encontrá-la, pergunta a si mesmo:
"tive medo de me aproximar de alguém? Recebi afeto, e não percebi?”.
Um guerreiro da luz usa a solidão, mas não é usado por ela.
TRECHOS DA OBRA – MANUAL DO GUERREIRO DA LUZ
AUTOR: PAULO COELHO


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